Amoladores de Lisboa
O ofício de afiar lâminas de facas, tesouras, navalhas e cutelos

Amolador - por trabalhar com a mó, a sua única ferramenta, accionada em torno eléctrico ou por roda movida a pedal, como nos antigos carrinhos de mão ou nas bicicletas contemporâneas. O amolador apoia a lamina de faca, tesoura, navalha, cutelo, e volta a dar o corte pretendido.

Os que andam pela rua - de bicicleta ou de mota - com gaita de pã a ouvir-se, são sem duvida mais numerosos que os estabelecidos , embora todos, de porta aberta ou itinerantes, já não sejam tão numerosos como foram no sec. XX.

Não existe uma associação de amoladores, nem tiveram por hábito encontrarem-se regularmente, apesar da maior parte serem familiares ou conterrâneos e de virem da província de Orense onde na vila de Nogueira de Ramoim existe uma estátua de homenagem ao amolador, pois tantos dali partiram. Gente simples, modesta, para uma profissão de muita utilidade: repôr facas, tesouras e navalhas a cortarem bem!

É mais um contributo que Lisboa deve às gentes galegas, que para cá vieram labutar, tanto lhe deram e a engrandeceram! E hoje são lisboetas como os demais, os bons galegos de Lisboa!


Sr. José Garcia, Amolador

Boa Ideia - Oficina de amolador e guarda-chuvas

R. Acácio de Paiva 10 D, Lisboa,   Telef. 21 848 33 15

«Depois da 4ª classe fui trabalhar com o meu irmão, tinha 14, 15 anos, na oficina dele à Av. Almirante Reis, onde estive até 1968, quando mudei para aqui. Aqui foi fundado pelo meu pai em 1951 que aqui trabalhava mais o meu tio e 2 empregados». Casado há 40 anos com Maria, senhora galega com quem teve 4 filhos, dos quais 3 netos e irmão de Antonio Garcia também amolador na Av. Almirante Reis.

«Esta arte começa na ponta dos dedos, vim com 3 anos de Ourense, por isso perdi a pronuncia, fui à escola cá. Os amoladores de Lisboa vinham todos de Ourense, do município de Nogueira de Ramoin, à beira do Rio Minho». Mostra uma gaita de pan feita em madeira de buxo, com uma cabeça de cavalo talhada, onde se encaixa a mão: «Era do meu avô que eu não andei de roda
na rua. Sempre estive na loja. Tenho família como amoladores na Argentina, México, Brasil, Boston».

«Desmontar a tesoura, amolá-la e voltar a montá-la tem arte, o guarda-chuva não é só tirar e pôr varetas, embora com as molas é difícil, podendo serem precisas 2 ou até 3 pessoas para montar o chapéu-de-chuva, trabalho de paciência de chinês, chapéus que agora são lá feitos, com peças muito diferentes uns dos outros, os de molas, que a montar leva muito mais do que o ¼ hora dos antigos sem mola». Já afiar o fio de facas, navalhas e em especial de alicates de manicura, exige uma precisão de mãos para não estragar o fio de corte, tem de ser feito com fineza e muita luz.

A esposa vai buscar uma série de chapéus-de-chuva antigos, bem mais pequenos do que os actuais, sempre de 8 ou 10 varetas, em sarja - algodão de trama muito apertada que se torna impermeável, a que se mudava o tecido quando abria buracos ou se punha varetas novas. «Hoje com os chapésu chineses, baratos, já não compensa mandar arranjar».


«Pelo tocar da gaita sabe-se quem é o amolador. Antigamente os amoladores iam de férias por volta de Junho, à terra, na Galiza, a pé, de terra em terra, trabalhando, pernoitando onde já eram conhecidos, lá iam. Por exemplo na Póvoa de Sº Adrião ficavam num quarto duma taberna, depois seguiam - Torres Vedras, por aí fora, um mês de viagem, voltavam em Setembro, de comboio, pois para o Outono começava outra vez o trabalho do arranjo de chapéus-de-chuva.

Lisboa desde há séculos que é terra de galegos: «Antigamente encontravamo-nos na Casa de Espanha ou o Centro Espanhol ali à Trindade, ia lá gente de toda a Espanha. A Xuventude
Galicia
era mais do pessoal dos restaurantes».

«Um dia um cliente embirrou comigo porque dizia que o cabo que me encomendou depois
de escolher e escrever com uma caneta o seu nome, não era o que eu lhe tinha colocado na faca! "Porque diz isso? - perguntei-lhe. - Porque não está cá o meu nome! - Nem pode estar, o cabo está envernizado e não marcou nada!". O homem exaltou-se e deitou-me as mãos ao colarinho. Depois pediu-me a identificação". - Identifique-se o senhor primeiro. - Sou policia reformado. - Então vá à PIDE,  com este numero, que eles têm lá a minha identificação, fica a saber quem eu sou!" Aí o homem acalmou e atemorizou-se - pensava que eu era da PIDE...
Simplesmente como estrangeiro, eu tinha de ir à PIDE renovar a minha autorização de residência e davam-me uma guia com um numero...».

Vitrines todas em volta da loja, um balcão frente à porta e a banca de trabalho ao lado direito da entrada, protegida por uma rede: «É para as pessoas não mexerem nas peças! Um dia uma cliente pegou numa tesoura que eu acabara de amolar - estava quentíssima, ele não sabia, mal a tocou, atirou-a ao ar que voou até ao tecto!!. Outra vez um cliente veio com 4 tesouras para afiar - e uma era minha que tinha desaparecido havia 7 meses. Pousou-as em cima do balcão, assim que a vi, reconheci-a logo e tirei-a para dentro do balcão - era minha e estava de volta! "Mas eu trouxe 4 tesouras, falta uma aqui em cima" reclamou o cliente. "Não são 4, são só 3 como vê aqui em cima, esta é minha" e mostrei-lhe a dita tesoura, que voltei a guardar! O cliente nada mais disse».


«Um outro caso foi o de outra cliente a quem eu estava a mostrar tesouras. Ia-as pousando em cima do balcão . 1, 2, 3 ... a gente vai-as contando...5, 6 e daí a pouco já só estavam 5! Uma já tinha "caído" para dentro do saco da cliente. Nada disse. "Levo esta" disse a cliente, "Quanto é?" e eu disse-lhe o preço a dobrar da que levava para compensar a que caiu para o saco. Pagou e saiu, assim não foi preciso chatearmo-nos!».

E o Sr. José Garcia lá fica no seu posto, pessoa estimada em Alvalade, onde trabalha há tantos anos que já é uma figura do bairro e um dos últimos profissionais duma arte a desaparecer, diz ele.

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Sr. António Garcia Amolador

Casa Garcia - Av. Almirante Reis 173 - C, Lisboa, Telef. 21 847 7532

Este estabelecimento tem exactamente a idade do seu dono, ambos do mesmo ano, 1943.
A casa - uns 40 m2 - está bem guarnecida de montras, umas com chapéus-de-chuva, outras com tesouras, outras com facas, o balcão de peças mais pequenas tais como canivetes, goivas, etc. Ao canto esquerdo de quem entra é a oficina com torno eléctrico, atrás uma estreita bancada, com as diversas mós, umas 20, penduradas na parede.

Oficina de "Amolação especial em todas as ferramentas de corte e qualquer modelo de
tesouras. Especialidade em máquinas de barbeiro
", o amolador trabalha com a mó, a sua única ferramenta, accionada por torno eléctrico. O amolador apoia a lamina de faca, tesoura, navalha, cutelo -seja qual for o aço - na pedra da mó enquanto esta roda. «É preciso uma mão certa, uma mão muito firme e boa vista para pegar na peça e ir conduzindo a lâmina, senão esta estraga-se. Felizmente nunca tive um acidente, o meu irmão sim teve um, ao torno». O polimento é a fase que segue ao afiar, para tirar os riscos que ficam na lâmina. O sabão que se usava para dar brilho depois de polir as laminas, já não se usa.


No caso do fuzil - a ponta de aço com cabo - que usam talhantes e cozinheiros para afiar facas e
cutelos de cortar carne - depois de amolar o fuzil há que o avivar, repor os vivos ou estrias, que, esses é que afiam as laminas. Afia também goivas - a lâmina longa em forma de lanceta para cortar cutículas e calosidades - bisturis e alicates de manicura e de calista. De pouco serviu o há muito encerrado Hospital de Arroios, mesmo ao lado, pois os bisturis dos hospitais
eram afiados nas respetivas oficinas e não na Casa Garcia.

«O incómodo deste ofício é o pó que sai da mó, entra na nossa respiração. O outro efeito é
a projeção de faíscas para o amolador, pelo que adoptei uma posição ao lado do torno e não de frente, como tem de ser para afiar tesouras. O avental com uma protecção de alumínio, é o único anteparo para as faíscas não irem perfurando a roupa, de resto não atingem os olhos. Já o colocar-se dum ou de outro lado do torno, depende do jeito do amolador ao torno, já que no meu caso ele gira para o meu lado esquerdo, no sentido contrário aos ponteiros do relógio. Outros colegas colocar-se-ão de forma inversa». Sem obras a destacar nem peças mais dificieis ou encomendas de maior a recordar, é a rotina quotidiana entre facas, tesouras e chapéus-de-chuva, a outra parte do negócio. O arranjo de chapéus-de-chuva, com alicate, turquês, martelo, arame e pouco mais, pondo os arames 3 em cima e 2 em baixo, é um trabalho mais sazonal.


«As navalhas de barba praticamente desapareceram com a sua proibição de uso pelos barbeiros
(por causa da SIDA), só poucos particulares ainda as usam. Outro trabalho que há muito esapareceu foi o pôr gatos - uns grampos em U para religar partes partidas das loiças de barro ou porcelana». Já o soldar buracos nas panelas, baldes etc e peças de metal e folha, nunca foi trabalho de amolador mas sim de funileiro.

«Semprei gostei do oficio de amolador e recomeçaria de bom grado, mas não recomendo este oficio a nenhum jovem. E não há quem queira aprender o oficio».

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O Amolador de Campolide - Blanco e Garcia Ldª

R. Campolide 86, Lisboa Telef. 21 385 06 00

Foi um notável estabelecimento, com boas mobílias pintadas a branco e estantes,  torneados e envidraçados, repletas de chapéus-de-chuva e de facas, tesouras e outros, decoração, a atestar a antiguidade deste estabelecimento. Com uma fachada em ferro trabalhado e pintado de vermelho rubro, tudo ao gosto dos finais do XIX, em 1969 Guilherme Garcia, natural de Ourense, transformou este espaço elegante até então sapataria, em oficina de amolador onde trabalhou com a mulher Maria Garcia: «Vinham as armações de chapéus-de-chuva de Itália, o meu marido montava-as e eu punha o tecido em nylon». Outros tempos, em que o reparar  compensava pois as peças, tinham qualidade e o "descartável" não era regra.

G.P. 2018