Ópticos, Ópticas e Oculistas
Os que nos ajudam a ver bem. São os técnicos e estabelecimentos que montam e afinam as próteses oculares receitadas por optometristas ou oftalmologistas. Mais recentes ou mais antigas, a veterana Rodrigues Oculista na Rua da Prata, sob a Igreja de S.Nicolau, data de 1787.

Sr. Manolo Gonzalez, empresário de Óptica, proprietário da Lunopodium - Sociedade Peninsular de Óptica L 

É um homem de 91 anos, enérgico e emotivo como sempre foi, cabeça viva, memória plena, vigor físico, gosto pelo que fez, que nos fala. O seu sucesso deveu-se a ter lançado armações e lentes de qualidade a um preço acessível, a ajudar o cliente em todos os passos do negócio, nunca o enganar, ter representado as principais marcas de óptica, sempre com muita dedicação, entusiasmo e empreendedorismo. «Tinha o mercado de Portugal e Espanha na mão, isso dava-me uma grande força em ambos os países, eu era o maior no sector em Portugal».

Nascido em 1927 em Pueblo de Touza, ayuntamiento de Esgos, provincia de Ourense, veio com 10 anos - em 1937 - para Portugal, a salto pela fronteira de Verin, sem passaporte, indo dormir a Chaves em casa de gente conhecida. A Guerra Civil já começara e o pai, amolador em Lisboa, esperava-o aonde chegou de comboio, pondo-o logo a trabalhar no ofício. Mas depressa passou para a óptica, ao mesmo tempo que fazia o trabalho de amolador: «Comecei a vender óculos e depois a fornecer óculos para as lojas de oculista». Uma evolução natural! «Tinha uma volta certa cada dia da semana, de maneira que as pessoas podiam sempre contar comigo semanalmente: à 2ª fª ia de Campo d'Ourique até à Praça das Flores. À 3ª fª ia de Alcântara até Algés e assim por diante. Na venda ambulante de óculos eu usava uma escala de medir graduações - uma vara com uma régua de distância - que Silva Oculista inventou e vendia por 80$00: aí via a graduação da pessoa e depois perguntava-lhe para que é que precisava dos óculos, para saber a que distancia as pessoas precisavam de focar. Eu cheguei a andar com 4 malas ao mesmo tempo - duas presas a um cabo que eu pendurava ao ombro e uma mala em cada mão. Umas eram mostruário para os oculistas, outras para os clientes da venda ambulante».  «Tive a fábrica de lentes na Rua dos Douradores, ao lado da Igreja de S.Nicolau, que pertencia ao Rodrigues Oculista» Depois esta fábrica transferiu-se para a Amadora com 40 trabalhadores. Tive outra fábrica de armações sita na Rua Actor Vale 16-A, por volta de 1967. Em 1957 importei de
França a máquina de cortar lentes Brillaud com 2 pedras, que deu muita satisfação aos profissionais. Tambem vendi em Cabo-Verde, Angola e Moçambique onde ia regularmente. Tive ainda outra fábrica de armações - a principal - em Ourense na Av. Buenos Aires. A matéria-prima,
sempre boa, era o fundamental. Importei máquinas Zeiss da RDA e cristal Zeiss do melhor para os meus fabricos, inclusive plaqué ouro de 14 quilates, que nunca perdia o dourado». 

«A Lunopodium - Sociedade Peninsular de Óptica Ldª, teve escritórios e armazém na rua da Prata, num 2º andar de gaveto com a Rua da Vitória. Trabalhava para Portugal e Espanha
encerrou aquando da integração europeia, tinha então 18 empregados mas chegou a ter 200 em ambos os países. Tinha desde os anos 1960-65 a representação das  melhores marcas, tais como a Lacoste, a Chevignon, a Nina Ricci, etc. Percorria Portugal e Espanha a instalar e a dar assistência em máquinas - máquinas de corte ou de lentes - dava formação, reparava, fornecia peças, substituia o que fosse necessário ao cliente: cheguei a fazer 5 mil kms numa semana. O mesmo nas armações e lentes, conhecia quem trabalhava bem ou não. Isso ajudou-me a lançar o associação profissional da Óptica em que com mais alguns dos melhores profissionais da época, donde Alfredo Lopes Pereira e Adolfo F.Lima, sempre aconselhando-me com todos eles, criamos o Grémio dos Comerciantes de Artigos de Óptica, hoje Associação Nacional da Óptica, de modo a regular a actividade das ópticas, sempre para protecção da saúde publica: só filiávamos os capazes e competentes - eu conhecia melhor que ninguém todos, pois visitava-os regularmente como fornecedor e observava o desempenho deles».

«Eu não vendia caro - uma margem contida - vendia era muito, em grande quantidade e com isso ganhava muito e ganhava quota de mercado! Mas crescia sempre ao vender armações, lentes, acessórios, máquinas e suas peças. Nunca enganei o cliente porque uma pessoa só se engana uma vez! Com 18 anos, em 1945, estabeleci-me, com muito pouco capital, importava para toda a Peninsula, com representações permanentes em Barcelona e Madrid. Em 1947 comecei a importar de França e pus um dos meus 3 filhos a ir a França estagiar nas marcas, outro filho a estagiar em Itália junto dos fornecedores, a conhecerem e a aprenderem o negócio. Tenho ainda mais um filho e uma filha, 8 netos e 4 bisnetos».

Na Rodrigues Oculista - a óptica mais antiga da Península fundada em 1773, era a loja retalhista deste empresário e funciona ainda hoje continuada por um dos filhos. «Não precisava de grandes campanhas nem promoções pois eu era directo e bem conhecido de todos - o que eu  era do melhor e ia ter seguramente sucesso, os oculistas encomendavam-me logo e satisfiz sempre os meus clientes».

G.P. 2017