Marmoristas e Canteiros
Desde a ocupação romana que em Lisboa se constrói com calcário e mármore, materiais que por aqui abundam, utilizados ao longo de todas as épocas, extraídos de pedreiras locais, alguns que a toponímia ainda recorda – Escadinhas do Espirito Santo da Pedreira, na colina do Carmo; S.Sebastião da Pedreira e tantas outras que a cidade actual esconde e esqueceu. Pedras trabalhadas e preparadas ainda hoje pelos marmoristas e canteiros, sete firmas ao todo.

Marmorista de Alvalade

R. Acácio de Paiva 33, Lisboa        telf. 21 849 21 80

Hoje é dos irmãos Arménio e Armando Nunes dos Santos, a firma fundada em 1950 por Manuel Nunes e Antonio Neves Barata, vindos de Góis enriquecidos pelo minério de volfrâmio no tempo da guerra, que vieram estabelecer-se em Lisboa, abriram esta oficina, outra na Cçª Poço dos Mouros, outra nos Anjos, depois adquiriram serrações em Pero Pinheiro e abriram pedreiras em Vila Viçosa.

Bom-Fim Marmores de Algés Ldª

Av.  Bombeiros Voluntários 7,  Algés       Tel. 21 410 81 03,        96 636 88 47

Fundado por volta de 1957 por Guilherme Alves Nunes, Manuel Alves Nunes, primos entre
si, e por Teodoro Raimundo, tem como actuais donos António Rosado e Manuel Nunes. O primeiro entrou para esta firma em 1987 como empregado levado pelo seu pai, Manuel Nunes que já ali trabalhava e que ficou como sócio a partir de 1992.


Mármores Longuinho & Neves Ldª

Calçª Poço dos Mouros 12 e 12 A,   Lisboa  

Tel. 21 814 16 70 / 91 484 31 76          longuinhoeneves@net.vodafone.pt  

Foi fundado em 1940, situa-se quase a chegar ao alto da Penha de França, numpátiogaragem e uma oficina.


Marmorista do Lumiar

António L. Teixeira de Magalhães Ldª

Azª das Lajes 7 B/C fte ao Cemiterio do Lumiar,  Lisboa     Tel.  21 759 12 48        96 338 87 53        altm.lda@gmail.com

O dono da firma, o sr. Fernando Magalhães, 54 anos, empresário experiente que
sabe ouvir e atender, narra: «Quem fundou esta empresa foi o meu pai, António
Teixeira de Magalhães, natural de Cabeceiras de Basto, donde veio depois de
construir a ponte de Ribeira de Pena sobre o rio Tamega, toda em granito, onde
dirigiu uma equipa de mais de 20 canteiros».


Leonardo Ribeiro Filipe Industria de Mármores e Cantarias

Rua Praia da Mutela 10,  Cova da Piedade,   Almada     Tel. 21 276 74 86       91 721 88 49

O sr. Leonardo Ribeiro Filipe  nascido em 1952, começou aos 14 anos, a trabalhar em Pero Pinheiro nas pedreiras onde o seu pai já trabalhava como cabouqueiro a partir pedra: «Era o que havia. Vim para aqui por volta de 1980, esta firma já existia e o meu patrão lançou-se a construir, eu continuei com  este negócio».

Marmores Sª Rosa ldª - MSR

Rua Particular, Quinta Sª Rosa, Armazem 3, Camarate   Tel. 21 947 74 32      msr.lda@hotmail.com

A firma terá iniciado nos anos 1960, na época prosperou com a construção rápida dos bairros, clandestinos e legais de Fetais, Camarate, Bairro Angola, Bairro S.Francisco, etc. durante as décadas de 1960 e 1970, que lhe "davam tanto trabalho que faziam turnos até à meia-noite, uma hora madrugada, para dormir um bocado e voltar ao trabalho".

 A Marmorista Central de Xabregas, Lda.

Cçª D. Gastão 12, Vila Maria Luisa, porta 4,  Lisboa           Tel./ Fax. 21 868 20 34       

É uma sociedade por quotas constituida a 28/3/1956, de que atualmente são seus sócios Arlindo Almeida e sua esposa Mafalda Almeida. De salientar que a D. Mafalda Almeida é filha de um dos fundadores, o Sr.Vitor Almeida, do qual herdou a quota. O outro sócio fundador era conhecido pelo António das Pedras.


A  INDUSTRIA DOS MÁRMORES E CANTARIAS


As pedras

Lisboa é uma cidade feita de pedra e sobre pedra calcária e basáltica assim como o Porto, Braga, Guimarães o são do granito.

Se os calcários e os mármores, o laranja de Morelena, o vermelho de Negrais são as pedras de sempre, já os granitos só conheceram uma aplicação crescente a partir dos anos 1990, quando as novas técnicas, lâminas e máquinas de corte e polimento o tornaram na pedra acessível em preço e manejável em execuções que conhecemos hoje. Entretanto outras pedras foram desaparecendo, por interdição ou por esgotamento, como a brecha da Arrábida.

Desde o inicio do final sec. XX um novo material surgiu, ainda sem grande procura, mas já trabalhado por estes profissionais: o silestone - marca dum prensado de pó de diversas pedras, aglutinado por resinas e colas, que dá um acabamento e aplicação bastante similares à pedra natural, que imitam.

Hoje o lioz é mais caro e mais raro que o mármore e só 2 pedreiras o venderão ainda, as outras
fecharam já. Para Antonio Peixoto dos Mármores Santa Rosa «foi o Centro Cultural de Belem que relançou o lioz pois até aí estava parado. Agora o mármore está a voltar de novo à moda».

Estremoz e Vila Viçosa mantêm as suas lavras, graças à exportação que compensa a quebra da
construção em Portugal onde alguns destes marmoristas se vão abastecer, outros, importam da África, Américas, Ásia e até da Noruega, pedras mais raras, apresentando algumas destas firmas catálogos com 2, 3 ou 4 dezenas de variedades de pedras.

Segundo o Sr. Arménio Nunes dos Santos dos Mármores de Alvalade «As pedras mais procuradas são o mármore de Estremoz, mais ou menos claro conforme o gosto, as brechas de Tavira para paredes, o lioz de Pero Pinheiro para chão e bancadas, que está quase a esgotar, a pedra de Morelena, mais avermelhada, embora as pessoas prefiram as claras. As pedras foram-se mantendo as mesmas. Só ogranito, que se usava pouco, é que foi aumentando, desde os anos 1980/90, pois não havia engenhos para ele mas agora há e todos os empreiteiros os têm e já aplicam muito o granito».

Descarga de pedras, Marmores de Alvalade
Descarga de pedras, Marmores de Alvalade

Para Leonardo Ribeiro Filipe «Hoje o silistone, que é muito rijo, substitui tudo o que exija mais dureza, como por exemplo a pedra de bancada, usualmente em granito» no que é confirmado por Antonio Rosado, da Bom-Fim de Algés: «O silestone é tão rijo como o granito  pois tem 95% de granito, é bom para cozinhas pois não risca, mas não é indicado para exterior pois degrada-se mais do que a pedra natural. É moda de há um par de anos para cá».

Vários destes profissionais da pedra aparelhada são unânimes em que «se há 20 anos me tivessem dito que eu um dia ia cortar aglomerado de pedra com resina - afinal o equivalente ao aglomerado da madeira com cola - eu não acreditava!». Outros acrescentam que os novos materiais fabricados, como o silestone, vão destronar a pedra natural, uma questão de tempo, por razões de esgotamento das pedreiras ou por razões ambientais!

O Sr. Antonio Rosado, dos Mármores Bom-Fim de Algés, exemplifica o porquê da diminuição do uso de pedras naturais: «Repare, se um cliente hoje compra uma pedra de lavatório, vai custar-lhe entre 60 e 70 € quando por esse valor pode comprar todo o mobiliário e um lavatório encastrado em móvel para a casa-de-banho».

Os profissionais

O canteiro, aquele que esculpe a pedra a escopo e a maceta, entre os visitados já nenhum pratica ou praticou excepto o sr.Fernando Magalhães, dos Mármores do Lumiar - mas recordam terem conhecido profissionais mais velhos quando começaram, que faziam esse trabalho no Bom Fim e no Lumiar. Desde há muito que em Lisboa é só corte de pedras com máquinas, manualmente (ainda não programadas). Mas dois dos entrevistados referiram existir um canteiro, pelo menos, em Pero Pinheiro, ainda em actividade.

O Sr.Fernando Magalhães, dono da Marmorista do Lumiar, descreve assim o trabalho do canteiro: «Para ser um bom canteiro é preciso ter calo, que não é toque para a pedra, não é
sensibilidade nas mãos. O que é preciso é passar o desenho para a pedra através da maçeta e do badame, o escopo, dirigir o talhe da pedra e afeiçoá-la ao que queremos fazer. Mas não há
continuação desta arte porque não há aprendizes».

Como se "sentem", como se distinguem as pedras? «Não é pelo toque nem pelos dedos que identifico as pedras mas sim pela vista. A rigidez, a dureza da pedra, essa distingue se pelo toque e no corte sim, aí sente-se a pedra. Tem linhas, tem veios, que nalguns casos pode dar quebras ou falhas» responde o Sr. Antonio Peixoto da Mármores Sª Rosa, no que é corroborado pela opinião de outros entrevistados.

Mármores Sª Rosa, Camarate
Mármores Sª Rosa, Camarate

Como vieram para esta profissão? Uns claramente trazidos por familiares que já trabalhavam no sector, não tendo nunca trabalhado noutra actividade. Outros destes profissionais vieram de áreas afins, como o Sr. Arménio Nunes dos Santos e o irmão Armando, dos Mármores de Alvalade - conta: «Estou há 24 anos aqui vindo do assentamento de revestimentos, de alcatifas, tectos falsos e ladrilhos. Vim para aprender. Andávamos sempre de joelhos a assentar chão, tivemos uma proposta melhor e viemos, isto é bem melhor».

O futuro da profissão? Uns acham que há futuro e que este trabalho compensa, como
afirma o Sr. Arménio Nunes dos Santos dos Mármores de Alvalade: «Qualquer dia deixam de tirar pedra pois não há gente a querer tirá-la dos buracos e acabam com isto. A um jovem que quisesse vir para este trabalho, dizia-lhe que tinha de pensar duas vezes, a ver se gostava, pois não era só para ganhar dinheiro ao fim do mês. Não é preciso estudos, é preciso é ter mãos, ter cuidado com as máquinas, mas compensa, pois pedra gasta-se sempre, até se exporta em paletes», dá para ganhar honestamentea vida, sem grande formação mas com muito esforço e ganhos medianos.


Mármores Sª Rosa, Camarate
Mármores Sª Rosa, Camarate

O processo de trabalho

As fases deste trabalho são o corte, o polir, que dá o brilho, ou o amaciado que não tem
brilho e os acabamentos.  A operação começa pela máquina de corte com charriot - um apoio onde a pedra assenta e que se desloca debaixo da lâmina circular de corte. «O diamante é para o granito e para o mármore. E a lâmina de corte já é como que "oca" não faz barulho como fazia antigamente, só se ouve o motor». Em volta da roda, nos dentes, está um reforço em diamante (de cor dourada e denteada). O disco "come" meio centímetro pelo que a espessura mínima de corte é de 1 cm.  «No polir são rodas que prendem 4 calços que vão do nº 1, o que desbasta mais, ao nº 4, o que menos desbasta» explica o sr. Antonio Rosado dos Mármores Bom-Fim apertando esses calços ao disco, segurando com uma mão o manípulo que orienta a
máquina de polir ou de polimento e com a outra mão dirige o braço da máquina, suspensa sobre as pedras, vai correndo o polimento ora ao comprimento, ora em transversal, sempre com água corrente, a qual arrasta o pó fino que sai desta operação.

Para os acabamentos usa a rebarbadora, sendo os outros acabamentos possíveis abrir orifícios para tubos e canos, picar, bojardar, gravar letras, marcas ou desenhos. «Antes havia um homem na máquina de corte, outro na de polir e outros nas bancadas, mas agora todos fazemos um pouco de tudo, dado as encomendas de hoje serem poucas e pequenas, já não há encomendas para prédios de raiz, só para algumas remodelações, pedras de lava-loiça, escadas, forros para casa de banho, mas revestimentos de paredes em pedra já não se fazem pois ficam mais caro», acrescenta o Sr. Antonio Rosado .

Mármores Sª Rosa, Camarate
Mármores Sª Rosa, Camarate

Esta indústria

Organiza-se em pequenas empresas de origem familiar, com 2 a 6 colaboradores cada, em que alguns tambem são sócios. Fornecem-se de pedra nas serrações de Pero Pinheiro, Negrais, de S.Domingos de Rana e Tires. 

Estas 7 empresas abastecem uma vasta área da Grande Lisboa e para além dela, atendendo a muitos pedidos de pequenos colocadores de campas de cemitérios, de balcões e bancadas, de empresas de construção civil, de reabilitação de edifícios, decoração de lojas comerciais, remodelação de cozinhas e casas de banho, etc.

É um negócio em que cada estabelecimento cobre uma área mais vasta do que era habitual há décadas atrás, indo a clientela até Cascais, Algarve, Ribatejo, etc. - o que lhes compensa a redução da procura e a diminuição das margens comerciais.

A concorrência é pouca e a complementaridade entre colegas reduz-se a, de quando em vez, encomendar alguma pedra, de alguma cor que não disponha em stock, ou uma gravação mais especial.

O que faz o sucesso e manutenção desta actividade é a mecanização que lhe confere uma
eficiência e rapidez de execução, uma maior produtividade com pouca mas especializada mão d'obra. Tambem a padronização da maior parte das encomendas, peças de medidas estândar, cortes simples e regulares permitem o preço acessível e as múltiplas aplicações.

Mármores Bom-Fim, Algés
Mármores Bom-Fim, Algés


Firmas já desaparecidas e as novas marmoristas

Na memória de muitos, colegas que já fecharam - um marmorista às Portas de Benfica, outro nos Anjos, no Campo Santana, no Principe Real, outra ao Lgº Sª Barbara - só para mencionar as maiores que foram fechando, provavelmente por não responderem à maquinização crescente desta industria. Outros mudaram-se como os Mármores de Antonio Pedroso na Amadora, do pé dos Bombeiros, para o Casal de S.Brás.

Mas novas firmas do ramo surgem, como a Marmorista de Porto de Mós na R.Agostinho Neto 52 B à Quinta do Lambert e outra, a Clinica do Mármore na R. dos Industriais 29 - A (à Av. D.Carlos I), são a versão moderna de venda destes materiais pétreos, onde se escolhe por amostra, se encomenda, mas sem nenhuma transformação da pedra no local, quiçá porque o corte e polimento são já feitos pela própria pedreira.

Sr. Antonio Rosado, Marmores Bom-Fim, Algés
Sr. Antonio Rosado, Marmores Bom-Fim, Algés


Um reconhecimento público


São somente 7 as empresas de Lisboa e arredores que ainda cortam, pulem as pedras que guarnecem as nossas casas e espaços de vida. Nelas trabalham uma dúzia e meia de operários, incluídos os donos e sócios num trabalho duro, discreto, sujo e desconhecido do grande publico, mas tão meritório e essencial ao nosso bem-estar. Trabalho hercúleo graças às poderosas máquinas que amplificam a mão humana, dando-lhe o macio e o belo da pedra, que a Natureza criou, mas que só o trabalho destes profissionais traz à nossa vista e para nosso regalo.

©   G.P.  2016

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