Casas de Chá e de Tisanas
As boas bebidas que aquecem o corpo, animam a alma e proporcionam bem-estar.O chá - tal como o café - toma-se a qualquer hora, em qualquer lugar, propicia convívio e pausa, mas tem uma superior vantagem: como se bebe mais demoradamente, prolonga o prazer!

Companhia Portugueza do Chá de Vieira & Pinto ldª

R.Poço dos Negros 123, Lisboa

Tel. 21 395 16 14                   companhiaportuguezadocha@gmail.com

Aberto em Dezembro 2014, é uma criação com bom gosto de um espaço que aparenta ser antigo mas de facto não o é: um móvel de caixeiro antigo, estantes pintadas a cores escuras, uns 20 pontos de luz que dão um ambiente acolhedor e reservado, intimista, sereno e familiar, como se dum antigo escritório duma empresa importadora e revendedora de chás se tratasse: marca vintage criada para o efeito: a efigie da "rainha do chá", Catarina de Bragança, "the drinking queen".

O mentor e dono de tudo isto é um apaixonado por chá- um tea sommelier - Sebastian Filgueiras que da paixão cultivada ao longo de anos tornou saber, requinte e negócio. Um catálogo com uns 70 a 80 chás diferentes, é o propósito deste homem novo, argentino de origem galega, que estudou numa das academias de Barcelona, reconhecidas pelo British Council of Tea e que os laços de casamento trouxeram até Lisboa.

«A arte de misturar o chá, de o preparar e de o servir. Lisboa tem uma relação antiga com o chá pelas importações, algo esquecida. O chá foi ficando para trás face ao
café, com quem acabou por se vender sempre em conjunto, mas aqui não, só chá e
os seus artefactos, para os portugueses que apreciam chá mas não têm onde o ir
buscar. Só em Istambul vi excelentes lojas de bom café com muito bom gosto.
Tenho a certeza de que as pessoas vão voltar a gostar de chá, tudo vou fazer
por isso». Com um ar concentrado e tranquilo, Sebastian Filgueiras serve os
seus clientes ao mesmo tempo que lhes vai explicando alguns aspectos, sabores
ou modos de preparar e de servir: «Verta um pouco de água no fundo, onde já
estão algumas folhas. Depois agita com esta colher de bambu, neste movimento só
mão e não o braço» e assim qual mestre no culto do chá, Sebastião inicia os
seus clientes ao dito culto "teista".

«Sempre tive interesse em chás, de aprender, ler, procurar, casas de chá em Paris e
Bruxelas», este homem, pequeno e magro, mas firme e seguro, convicto do que diz
e faz, que inspira confiança no seu saber, reforçado pelo seu ar oriental, de barbicha na ponta do queixo e de óculos redondos, cabelo apanhado atrás, em rabo de cavalo. «Eu importo ou
diretamente das origens ou através de Hamburgo, a grande praça europeia e mundial do chá, onde ele é certificado. No chá não há categorias mas gostos, ocasiões, blends, preparados conforme o momento. Há os perfumados ou puros, com óleos, especiarias que se bebem em
ambiente de festa com bolos. E há os chás festivos - o chá do Natal - chá preto  com laranja, cravinho, canela, o chá da Páscoa, etc.. Eu crio, como criei o Lisbon breakfast em paralelo ao english breakfast ou ao Paris breakfast. O Lisbon brekfast é para a manhã, combinação de chá preto e de Ceilão, que dão corpo, com Orange peekoe, goreana, que dão muito perfume mas têm menos corpo. Por exemplo o darjeeling não é para a manhã».

As latas em folha preta ou vermelha, cilíndricas de tampa em campânula, são um padrão internacional e compõem as prateleiras abertas, enquanto que detrás das vitrinas de vidro, estão os artefactos - bules, taças, passadores - iluminados, como que numa serena exposição prestes a serem chamados a preparar o liquido quente, aromático e suave que do Oriente veio.

«Venceslau de Morais criou o chá Saudades de Kobé que é chá verde, com pétalas de rosa e limão. Tambem tenho e recomendo o russian karavan um blend clássico da China, que ia para a Russia, ligeiramente fumado, pois os camelos de noite, com as cargas de chá, ficavam ao pé da fogueira e defumavam o chá ligeiramente. Eu faço-o seguindo a combinação convencionada. O olong é azulado, com pouca teína, com um toque de cereja, é recomendado para a tarde. O sakura é do Japão, flor de cerejeira. Difundir o culto do chá bem preparado, em folha, totalmente diferente do chá em saquetas, é o meu objectivo. Saber reconhecer as diferentes famílias de chá, dar o chá certo na hora certa - almoço, lanche, noite, as harmonias possíveis, como os vinhos com os alimentos. Boas folhas, boa preparação, na ocasião certa!».

«Mobiliário, balcões, que fui reunindo em antiquários, a decoração é toda minha». O bule e os acessórios, um candeeiro com um pretito, dão o toque exótico, qual ex-libris da casa, o
retrato dum antigo senhor , cumpre o papel de fundador deste recriado, revival dum empório comercial do secº XVIII ou XIX. Gavetas antigas caixas chinesas de laca próprias para o chá. As
luzes de dentro dos armários são quentes e indirectas. Uma mesinha dá uma exposição requintada.

O publico é selecto, alguem que trata por tu com o dono e a frequência é constante. Classes de
consumo médio alto, nas idades dos 35 para os 45 anos. Uma mesa alta ao centro da casa é o coração entre tanta caixa de chá e nas prateleiras o rimar de cores e formas, dão o piscar de olho para mais uma oferta.

A montra excede em boa exposição: um postal dos que na 1ª metade do sécº XX se ofereciam de boas-festas, um toque de revivalismo natalício, a arvore de Natal, um ornamento. A porta e as molduras da montra em madeira pintada a negro, remetem-nos para essa convenção britânica do estabelecimento elegante e tradicional. A mesma montra é preenchida de brinquedos, miniaturas de soldados e canhões, os brinquedos que encantam o Natal da pequenada e dão o ar familiar
a este estabelecimento, numa rua velha frente a um casario antigo. Afinal o chá é uma das mais antigas importações do trato - negócio - com o Oriente. Logo não seria de muito longe daqui, da zona ribeirinha e portuária, que viriam as cargas de chá, aquele ficou nos nossos hábitos
e é isso que Sebastian Filgueiras, mestre escanção do chá, nos vem recordar e re-iniciar na apreciação. Longa vida ao mestre do chá.

G.P. 2017